Brasil e EUA na disputa das terras raras: geopolítica, sustentabilidade e potencial

Brasília – Em MEIo à corrida global por minerais estratégicos, o Brasil emerge como peça-chave no mercado de terras raras em 2025. O país possui reservas abundantes desses 17 elementos essenciais para alta tecnologia, mas enfrenta desafios para aproveitá-las de forma soberana e sustentável. As relações entre Brasília e Washington refletem tanto oportunidades de cooperação econômica quanto disputas geopolíticas ligadas à dominância chinesa na cadeia produtiva. A seguir, veja os principais pontos sobre a situação atual do setor de terras raras no Brasil – de tensões diplomáticas e estratégias bilaterais até os impactos ambientais e investimentos recentes – apresentados em linguagem jornalística, neutra e atualizada.

Geopolítica das terras raras entre Brasil e EUA

A disputa pelos minerais críticos, especialmente as terras raras, tornou-se uma guerra de narrativas entre o governo brasileiro e os Estados Unidos. De um lado, Washington se apresenta como parceiro estratégico para reduzir a dependência global em relação à China; do outro, o Palácio do Planalto adota um discurso de soberania e nacionalismo econômico, rejeitando qualquer tutela externa sobre os recursos naturais do país. Em julho de 2025, o vice-presidente Geraldo Alckmin recebeu de entidades empresariais americanas (Amcham Brasil e U.S. Chamber) uma proposta de ação conjunta Brasil-EUA para exploração de minerais críticos. Ao mesmo tempo, o encarregado de negócios dos EUA em Brasília, Gabriel Escobar, reuniu-se com representantes do setor mineral brasileiro para reiterar o interesse norte-americano nas reservas nacionais.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, reagiu publicamente enfatizando o controle brasileiro: “Temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro” – declarou Lula em um evento em Minas Gerais, numa mensagem direta contra interferências estrangeiras. A posição firme veio num contexto de atrito diplomático: os EUA anunciaram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros (em vigor a partir de 1º de agosto de 2025) em resposta a questões político-judiciais internas do Brasil. Autoridades dos dois países negam que haja troca de favores entre alívio tarifário e acesso a minerais; ainda assim, a coincidência das negociações reforçou percepções de que as terras raras se tornaram um ativo estratégico nas relações bilaterais. Até o momento, apesar do intenso diálogo político, nenhum plano concreto de cooperação industrial foi anunciado para desenvolver cadeias de refino ou fabricação de ímãs no Brasil.

Estratégias econômicas e disputa pelo controle da cadeia de suprimentos

Os elementos de terras raras – como neodímio, cério, disprósio e outros – são críticos na fabricação de tecnologias avançadas, de turbinas eólicas e veículos elétricos a sistemas de defesa e semicondutores. Nas últimas décadas, a China consolidou um quase monopólio global: além de deter as maiores reservas, domina o refino e a produção de ímãs de terras raras, suprindo cerca de 90% da demanda mundial. Essa concentração tornou-se um ponto de tensão geopolítica. Em 2025, intensificou-se a disputa comercial entre Washington e Pequim, com medidas retaliatórias de ambos os lados. No fim de junho, por exemplo, a China chegou a suspender exportações de ímãs permanentes para os EUA em resposta a tarifas americanas, ameaçando colapsar indústrias dependentes – situação contornada por um acordo direto entre o presidente Donald Trump e Beijing. Em paralelo, os Estados Unidos buscam alternativas: pressionaram aliados a fornecer minerais estratégicos e chegaram a condicionar apoio militar à Ucrânia em troca de acesso às riquezas minerais daquele país.

Nesse cenário, o Brasil desponta como parceiro estratégico em potencial. O país é especialmente rico em determinados minerais críticos – detém cerca de 98% das reservas conhecidas de nióbio e aproximadamente 23% das reservas globais de terras raras, a segunda maior parcela do mundo, atrás apenas da China. Diante da limitação de fornecedores, autoridades e indústrias norte-americanas veem nas reservas brasileiras uma oportunidade para diversificar a cadeia de suprimento e reduzir a dependência chinesa. Prova disso foi a assinatura, em 2024, de um acordo de cooperação entre o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Departamento de Estado dos EUA, visando compartilhar tecnologias de ponta na prospecção de lítio, cobre, níquel e elementos de terras raras – recursos essenciais para a transição energética. A cooperação inclui mapeamento geológico conjunto em áreas promissoras do Nordeste, Goiás e Minas Gerais, reforçando os laços científicos bilaterais na busca por novas fontes desses minerais.

Cooperação Brasil–EUA e iniciativas bilaterais

Enquanto a retórica sobre soberania domina o debate público, nos bastidores Brasil e EUA ensaiam aproximações estratégicas no setor de terras raras. Um grupo de trabalho bilateral sobre minerais estratégicos existe desde 2020, e em 2024 os dois países firmaram um acordo-quadro que envolve o BNDES e a Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA (DFC). Entre as medidas propostas por entidades empresariais está a criação de um Plano de Ação para alinhar políticas e trazer previsibilidade à cadeia de valor, intensificando cooperação no mapeamento geológico e co-financiamento de projetos de extração e processamento. A ideia é combinar recursos de bancos públicos e privados dos dois lados para impulsionar investimentos tanto na mineração quanto principalmente no refino local de terras raras – etapa hoje quase inexistente no Brasil.

Também foram sugeridas parcerias tecnológicas e produtivas para integrar empresas brasileiras e americanas, trocando know-how em processamento mineral, rastreabilidade e desenvolvimento de novas aplicações (por exemplo, em baterias eficientes). Um ponto central dessas iniciativas é garantir benefícios mútuos de forma sustentável e inclusiva. A proposta Brasil-EUA enfatiza engajamento com comunidades locais, geração de empregos e reinvestimento dos lucros no desenvolvimento comunitário, além da adoção de padrões ambientais rigorosos (como aderir às normas ISO 14001 e criar sistemas de rastreabilidade dos materiais) para assegurar uma mineração responsável. Em outras palavras, buscou-se delinear uma cooperação em que o Brasil ofereça sua riqueza mineral e os EUA contribuam com tecnologia e capital, garantindo que ambos reduzam a dependência de fornecedores únicos (leia-se, a China).

Apesar dessas conversas promissoras, persistem desafios políticos e comerciais. O governo Lula tem sinalizado cautela em acordos que possam ser vistos como entrega de patrimônio estratégico, ao mesmo tempo em que tenta estruturar internamente a Política Nacional de Minerais Estratégicos – um projeto de lei em tramitação que definirá quais minérios são essenciais ao desenvolvimento econômico, tecnológico e ambiental do Brasil. Analistas apontam que, sem um plano doméstico claro, o país arrisca continuar apenas exportando concentrados brutos. Por isso, a cooperação com os EUA é vista com interesse, mas condicionada a parcerias que agreguem valor localmente, em vez de simplesmente alimentar cadeias produtivas estrangeiras. O equilíbrio entre atração de investimentos externos e proteção do interesse nacional tem marcado a diplomacia mineira brasileira em 2025.

Impactos ambientais e desafios da exploração sustentável

A extração de terras raras traz preocupações ambientais significativas. Embora o nome sugira escassez, esses elementos existem em baixas concentrações nos minérios, o que exige processar grandes volumes de material e usar reagentes químicos para isolá-los. Estudos indicam que, para cada tonelada de óxidos de terras raras obtida, são geradas cerca de 2 mil toneladas de resíduos tóxicos – frequentemente contendo materiais radioativos como tório – resultando em solos acidificados e águas contaminadas, como observado em regiões mineradoras da China. Na cidade chinesa de Baotou, por exemplo, décadas de mineração de terras raras criaram verdadeiros lagos de rejeitos químicos, tornando áreas inteiras impróprias para agricultura e forçando o êxodo de comunidades locais. Esse histórico acende um alerta para o Brasil: como evitar repetir tais danos?

No território brasileiro, projetos recentes de terras raras já enfrentam escrutínio socioambiental. Levantamento do Observatório da Mineração (2025) identificou 187 requerimentos minerários envolvendo terras raras que incidem sobre 96 assentamentos rurais em cinco estados – com destaque para Bahia (88 processos) e Goiás (53). Em algumas áreas, como Itamaraju (BA), comunidades temem a expulsão de famílias e a destruição de patrimônios naturais únicos (ali se encontra o mais antigo pau-brasil do país, com 600 anos, dentro de um assentamento ameaçado pela mineração). Organizações sociais e a Defensoria Pública acionaram a justiça para barrar a mineração em assentamentos, enquanto empresas afirmam que ainda avaliam a viabilidade e prometem não intervir em zonas sensíveis.

Outro caso emblemático ocorre em Caldas (MG), onde a empresa australiana Meteoric Resources planeja extrair terras raras de depósitos de argila iônica. O projeto, inédito no Ocidente, prevê o uso de sulfato de amônio para lixiviar 10 milhões de toneladas de argila anualmente – um processo experimental que alarmou moradores e especialistas locais. Estudos apontam riscos de contaminação dos lençóis freáticos, pois a argila tratada com reagentes seria devolvida às cavas próximas a aquíferos que alimentam a bacia do Rio Grande. Além disso, a proporção de aproveitamento é baixíssima: apenas 1,5 kg de carbonato de terras raras por tonelada de argila processada, deixando para trás resíduos químicos no solo. O fator geopolítico também aparece – a Meteoric firmou um memorando de entendimento com a empresa norte-americana Ucore (financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA), de modo que parte das terras raras extraídas em Caldas poderia abastecer a indústria de defesa dos EUA e Canadá. Isso gerou preocupação sobre o município se tornar peão em disputas internacionais, enquanto arca com os passivos ambientais. Em resposta, a comunidade local organizou audiências públicas e elencou condicionantes rigorosas para qualquer avanço do projeto, incluindo zoneamento restritivo, monitoramento ambiental por no mínimo 10 anos e até a exigência de que os minérios obtidos não sejam destinados a fins bélicos.

Diante desses cenários, autoridades e empresas no Brasil começam a enfatizar a sustentabilidade na mineração de terras raras. A Mineração Serra Verde, por exemplo, afirma empregar técnicas de extração a céu aberto de baixo impacto, sem uso de reagentes tóxicos, com energia 100% renovável e programas de recuperação do cerrado em Goiás. A adoção de padrões internacionais, auditorias ambientais e a inclusão das comunidades locais no planejamento são apontadas como caminhos para evitar que a expansão desse setor repita erros do passado. O tema chegou até ao Congresso: a nova política de minerais estratégicos deverá incorporar diretrizes de proteção ambiental, conciliando a exploração econômica com a preservação dos ecossistemas e direitos das populações afetadas. O consenso emergente é de que não há desenvolvimento legítimo sem justiça ambiental – e isso será determinante para o futuro das terras raras no Brasil.

Potencial do Brasil no mercado global e novos investimentos

Instalações do projeto Serra Verde em Minaçu (GO), a primeira mina de terras raras em operação comercial no Brasil.

O Brasil possui um enorme potencial econômico no mercado de terras raras, caso consiga viabilizar a produção nacional. Estimativas da consultoria Deloitte apontam que, convertendo reservas em minas produtivas, o país poderia adicionar R$ 233 bilhões à economia até 2050. As reservas brasileiras somam cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras – aproximadamente 23% do total global, o que coloca o Brasil em segundo lugar mundial. Porém, até recentemente essa riqueza permanecia praticamente intocada: faltavam tecnologia, investimentos e demanda interna que justificassem a exploração. A preferência histórica foi por outras commodities (como ferro, petróleo e agronegócio), e não se desenvolveu uma cadeia industrial de terras raras no país. “O mundo não respeita quem tem o minério, e sim quem domina a tecnologia”, resume Nélio Reis, pesquisador e autor do livro Terras Raras, Poder e Independência, ao destacar que detentores de reservas sem capacidade de refino continuam na dependência externa. De fato, até hoje, as poucas empresas atuantes no Brasil exportam o concentrado mineral para ser separado e refinado no exterior, principalmente na China. Esse quadro pode começar a mudar com os investimentos recentes.

No início de 2024, entrou em operação comercial, em Minaçu (Goiás), a Mineração Serra Verde – primeira mineradora brasileira a produzir terras raras em escala. Na Fase I do projeto, a empresa espera alcançar 5 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras quando atingir capacidade plena. O depósito explorado (Pela Ema) é de argila iônica, rico tanto em elementos leves quanto pesados de alto valor, incluindo neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Esses quatro elementos são cruciais para ímãs permanentes de alto desempenho, usados em veículos elétricos e turbinas eólicas – ou seja, têm mercado assegurado na transição energética. Com a Serra Verde, o Brasil passou a ser o único país fora da Ásia a produzir em larga escala as terras raras necessárias para ímãs, tornando-se assim o terceiro maior produtor mundial desses insumos. A empresa já anunciou contratos de venda para grande parte da produção e planeja dobrar a capacidade até 2030, mediante otimização da planta e uma possível Fase II de expansão. Outro player estrangeiro, a Energy Fuels (dos EUA), participa do negócio de terras raras no Brasil, enquanto a australiana Meteoric avança com seu projeto em Minas Gerais – evidências do interesse internacional em alavancar a oferta brasileira.

Entretanto, diversos gargalos precisam ser superados para que o Brasil consolide sua posição no mercado global de terras raras. Um deles é a falta de uma indústria de imãs e componentes de alta tecnologia no país. Conforme destaca Fernando Landgraf, coordenador do programa de terras raras do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, 90% dos ímãs do mundo são fabricados na China; assim, qualquer projeto brasileiro precisa comprovar viabilidade econômica num cenário em que a própria China é o principal cliente e fornecedor. Ele observa que até mesmo a montadora chinesa BYD, ao instalar uma fábrica de carros elétricos na Bahia, anunciou que não usará insumos brasileiros nos seus veículos, indicando preferir fornecedores já consolidados de fora. Essa dependência estrutural evidencia que não basta extrair o mineral: é preciso desenvolver a cadeia de valor adiante, seja atraindo fábricas de ímãs e componentes para o Brasil, seja firmando parcerias que garantam compradores diversificados.

Nos últimos meses, o governo brasileiro tem buscado atrair investimentos e conhecimento para este setor. A parceria firmada com os EUA em pesquisa geológica abre caminho para identificar novas jazidas e reduzir incertezas para investidore. Simultaneamente, a diplomacia brasileira negocia acordos que possam trazer financiamento e tecnologia para o refino em solo nacional, sem abrir mão do controle sobre os recursos. Por sua vez, os Estados Unidos, ao sinalizarem apoio financeiro via DFC, Eximbank e outras agências, demonstram intenção de incluir o Brasil em sua rede de fornecimento seguro de minerais críticos. Essa convergência de interesses pode resultar em empreendimentos bilaterais vantajosos, desde que endereçados os cuidados ambientais e a transferência de tecnologia. O Brasil de 2025 se encontra, portanto, num ponto de inflexão: de um lado, um gigante adormecido sobre riquezas minerais cobiçadas globalmente; de outro, a oportunidade de transformar esse potencial em desenvolvimento industrial sustentável, navegando com cautela entre parcerias internacionais e a preservação da soberania sobre seu subsolo. Os próximos capítulos da relação Brasil-EUA no campo das terras raras serão decisivos para definir se o país continuará como mero exportador de matérias-primas ou se ascenderá a protagonista na cadeia global de tecnologias limpas e de ponta.

Fonte original: Estadão

Publicado por Redação AmdJus, com base em fontes públicas. Saiba mais sobre nossa linha editorial.

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